Domingo, 05 Abril 2020 19:46

Ruidos Destaque

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Prefácio – Introdução

Olhando para trás, creio que meu primeiro registro sonoro, foi ouvir a estática da sintonia do barulho de um rádio. Penso que não demorei em me situar com ruídos exteriores, e me identificar como habitante do planeta.

Ainda menino, percebi a natureza do meio ambiente que me cercava, e creio que uma das primeiras experiências sonoras com o mundo exterior foi através dos apitos dos trens que cruzavam a região. Demarcando o horário de chegada e partida de apressadas pessoas, que se amontoavam na enferrujada estação ferroviária, de São Caetano em busca de prosperidade na região.

A combinação química da poluição das refinarias, com estranhos ruídos industriais e tumultuadas vozes humanas, me certificavam que eu crescia numa cidade em expansão.

Difícil fechar os olhos e não ouvir o barulho da cancela da estação de trem.

Também chamada de porteira, que impediam a travessia de pedestres e indicavam a aproximação das barulhentas locomotivas, numa incessante estática de aço com aço que beirava uma melodia metálica.

Eu igual a toda meninada, tanta fantasia eu fazia, e andar descalço e vestir calças curtas restringia a aproximação com pessoas mais velhas, um código de preconceito e proteção em relação ao universo adulto.

E nas ruas de terra – as brincadeiras de bola de gude, bate bafo, pula corda, mãe da lata e carrinhos de rolimã, compunham os ruídos das traquinagens, combinados aos ensaios das fanfarras de escolas e zunidos de vendedores de biju, quebra queixo e amoladores de facas – cenário de um labirinto de emoções infantis.

Somada a toda essa aquarela sonora, uma revolução tecnológica quebraria todas as barreiras da imaginação. O surgimento dos aparelhos de televisão multiplicou os limites da imaginação. E poder desfrutar da sensação de ter um cinema dentro de casa iria alterar radicalmente à percepção, não só da criançada, mas de várias gerações.

Nesse terreno ilimitado e abstrato de sons e imagens, a música significou um agente de observação e transformação, diante deste novo horizonte que se agigantava á minha frente, muito além de ruas, praças e avenidas.

 

Ler 93 vezes Última modificação em Terça, 07 Abril 2020 11:59
Ricardo Martins

Jornalista - Meados dos anos 80 montou o Rocker Jornal e depois a loja de discos Rick and Roll,  seu atual escritório artístico, que se tornou referência de várias gerações.

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